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Entretenimento

Da estratégia de conexão à crise: uso de álcool para ser parte do público pode prejudicar saúde e imagem de artistas

junho 9, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Qual o impacto do álcool nas apresentações ao vivo?
“Prepara o fígado”. Esta frase é bastante comum nos palcos ou no meio do público quando os primeiros acordes de um modão ou de uma sofrência embalam shows sertanejos.
Com o encaminhamento da música, copos e garrafas vão virando. E, quando isso acontece em cima do palco, pode trazer fortes impactos que vão desde problemas na voz e na performance dos cantores até crises de imagem e saúde mental destes artistas.
O g1 já mostrou como excesso de álcool nos palcos e bastidores afeta rotina dos artistas. Um aspecto importante deste abuso é: os artistas não buscam a bebida apenas por farra, mas em busca de conexão com o público.
“O que vejo hoje é uma geração que força a barra para querer gerar conexão. ‘Também gosto de beber, sou como vocês’. Até mesmo a geração de mulheres que veio e que também bebe no palco… No começo era: ‘sou como homem, a gente também bebe’. O principal motivo era gerar conexão. Mas aí perde a mão”, analisa uma profissional da produção do universo sertanejo que preferiu não se identificar.
Mas ela defende que essa tentativa de conexão não é exclusiva do sertanejo.
“O lema do rock sempre foi ‘sexo, drogas e rock n’ roll’. Para músicas de massa, mais populares, é o álcool. Até porque é liberado e mais barato. O reggae e a MPB têm a brisa da maconha. Não dá para generalizar, mas o consumo de drogas, normalmente, está relacionado ao estilo de vida”, afirma.
O “perder a mão” citado por ela nem sempre significa a dependência ou um escândalo nos palcos. Pode ser, também, uma crise na imagem do artista.
“Imagina um contratante que já viu um artista estouradíssimo dando várias declarações de que ele tem problemas com álcool, com bebida, que ele só faz o show se beber ou pedindo desculpas, porque mais uma vez ele não conseguiu fazer a apresentação com a qualidade desejada”, questiona a psicóloga Juliana Chiavassa.
“A gente não normaliza em outras profissões beber e trabalhar. Me parece que isso é muito mais da música, como se fosse muito livre”, aponta ela.
Juliana ainda destaca que essa normalidade é reforçada pelas grandes marcas de bebidas alcoólicas patrocinando eventos sertanejos.
Perdeu a mão? E agora? Como lidar com crises?
Entre dancinhas e “gelas”, Nattan fez um show de quase duas horas no Ribeirão Rodeo Music 2026
Érico Andrade/g1
Outro ponto que a psicóloga destaca é que, quando o artista ou sua equipe percebe que o uso da bebida alcoólica está fazendo mal, ele já tem grandes prejuízos.
Para o estrategista de imagem pública Luciéllio Guimarães, é um equívoco o artista achar que o público se conecta com ele porque ele está bebendo. “Na maioria das vezes, o público se conecta porque percebe espontaneidade, vulnerabilidade e autenticidade”, diz.
“O álcool pode até facilitar essa sensação no curto prazo, mas também aumenta o risco de comprometer exatamente aquilo que o artista foi contratado para entregar: a performance.”
“A conexão mais sustentável nasce da autenticidade, da presença de palco e da capacidade de leitura da plateia. Quando o artista passa a associar performance ao consumo de álcool, cria um risco duplo: para a saúde e para a própria marca pessoal.”
Mas se o artista não percebeu isso em tempo, o que deve ser feito?
“O primeiro passo é entender que a crise raramente nasce da bebida em si. Ela surge quando há uma quebra de expectativa do público. O fã compra um ingresso esperando determinada entrega artística e, quando percebe perda de performance, falhas vocais, esquecimentos ou comportamentos inadequados, sente que o acordo implícito foi rompido”, destaca Luciéllio Guimarães, estrategista de imagem pública.
Para fazer a gestão de imagem a partir deste momento, Luciéllio cita que o trabalho não é esconder o problema e, sim, restaurar a confiança do público no artista.
“Isso passa por reconhecer o ocorrido quando necessário, demonstrar responsabilidade e apresentar mudanças concretas de comportamento. O público costuma perdoar falhas humanas, mas reage mal à repetição do erro ou à negação da realidade.”
Nattan, Murilo Huff, Zé Neto e mais relatos
Murilo Huff empolga e encanta público na 1ª noite de show da Festa Junina de Votorantim (SP)
Marcel Scinocca/g1
A discussão sobre o impacto do consumo de álcool na rotina de apresentações voltou à tona após a autocrítica feita por Nattan após um show em Maracanaú, no Ceará. O cantor admitiu que o entusiasmo e a bebida consumida ainda no camarim comprometeram sua performance, a ponto de repetir ao menos uma das músicas diversas vezes durante o show. Ele não citou se vai abandonar o consumo de álcool, mas prometeu entregar para o público uma “nova apresentação com o padrão de qualidade que seu público conhece” em uma outra data.
A nova apresentação foi realizada neste sábado (6).
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Semanas antes, Murilo Huff havia contado em uma entrevista ao apresentador Renato Sertanejeiro que reduziu drasticamente o consumo de álcool em shows após uma conversa com Luan Santana ainda em 2022.
No ano passado, João Gomes revelou ter moderado o consumo de bebida por questões de saúde. Diagnosticado com gordura no fígado, o artista comentou que foi difícil abandonar o costume de tomar duas doses de cachaça por show.
Soma-se a esses depoimentos um novo relato de Zé Neto, dupla de Cristiano. Em entrevista a Luciano Huck no mês passado, ele relatou que entrou em um ciclo perigoso e abusivo de remédios, bebida e cigarro para dar conta da rotina de shows antes de aceitar o diagnóstico da doença. Em 2024, a dupla anunciou uma pausa na carreira para Zé tratar uma depressão. Antes desse afastamento dos palcos e da vida artística, o cantor usava a bebida como mecanismo para enfrentar crises de depressão e síndrome do pânico.
Entre artistas de diferentes gêneros musicais, o consumo de bebida alcoólica antes ou durante apresentações sempre fez parte dos bastidores dos shows. Mas esses relatos recentes mostram que a prática pode impactar diretamente a qualidade das apresentações. E trazer questões de curto a longo prazo para a voz, a imagem, a saúde e a carreira dos artistas.
Após admitir que bebeu demais, Nattan promete voltar a Maracanaú sem repetir músicas
Comprometimento de performance
O caso de Nattan exemplifica o tal comprometimento de performance. Na apresentação que gerou a polêmica, o artista teria cantado a música “Na Casa da Vizinha” dezenas de vezes. Nas redes sociais, há relatos de que ele não teria “conseguido cantar de tão bêbado”. E há também depoimentos de fãs dizendo que este já é um comportamento comum do cantor nos palcos.
“A gente tem que lembrar que o cantor está ali como profissional. Quem está se divertindo é o público. E às vezes, isso se mistura um pouco. O cantor entende que ali é um momento de festa, de entretenimento, inclusive para ele. E não é. Ali é o ambiente profissional dele”, afirma Thays Vaiano, fonoaudióloga especialista em voz.
“Contudo, a gente sabe que antigamente existia esse mito de ‘ah vou tomar um gole de conhaque e a minha voz melhora, eu fico melhor no palco’. Isso é uma inverdade, tomar qualquer tipo de bebida alcoólica não melhora a voz. Pelo contrário, piora.”
“Mas o álcool inibe um pouco o seu crivo e faz com que as pessoas se sintam mais soltas, menos inibidas. Então, isso faz com que eles se sintam às vezes mais confortáveis de exercer aquela função”, completa a fono.
Perda de inibição… e do controle da voz
Zé Neto e Cristiano; Bruno César e Rodrigo
Divulgação
O uso do álcool pode trazer a desinibição, mas junto com ela, o descontrole da voz. Thays Vaiano explica ao menos quatro formas que o álcool pode interferir na performance do artista:
Desidratação: como o álcool tem efeito diurético, ele retira a hidratação da região das cordas vocais e sofre com a perda de lubrificação. Como resultado:
maior esforço para cantar;
fadiga vocal;
A longo prazo, pode gerar lesão na prega vocal.
Perda de coordenação motora: isso também inclui toda a musculatura envolvida para cantar. O resultado:
desafinação;
dificuldade para controlar respiração;
erros de ritmo.
Menor percepção do esforço: o cantor perde a noção do volume da voz. E o resultado:
ele força mais a voz, gerando maior desgaste das estruturas envolvidas na fala e na produção de voz e do canto;
não atinge as notas desejadas;
aumenta risco de lesões.
Refluxo: o álcool é um dos principais desencadeadores do refluxo. E esse refluxo ácido que sai do estômago e chega na corda vocal, machuca a corda vocal. O resultado:
irritação das pregas vocais;
piora do desempenho.
Um tópico adicional aqui é que, em muitas vezes, a agenda do artista não deixa tempo suficiente para que ele se recupere destas pequenas lesões causadas no dia a dia. Com o tempo, os efeitos se acumulam e podem levar o cantor a uma situação cirúrgica.
“O álcool, por si só, não faz com que ele tenha que fazer uma cirurgia. Mas um uso prolongado de voz que não está muito boa, com algum tipo de lesão por muito tempo em cima fazendo esforço, faz com que a prega vocal sofra muito. E em alguns casos, isso faz com que eles tenham que que fazer algum tipo de reabilitação”, explica Thays Vaiano.
A fonoaudióloga Leny Kyrillos ainda completa que há diferença no consumo do álcool fermentado para o destilado. Ambos causam a desidratação e desencadeiam as questões já citadas. Mas o destilado ainda “provoca um efeito de pseudoanestesia: a pessoa força pra cantar, não sente, e quando passa o efeito, o estrago foi feito”.
Muito além do problema com a voz
Fã toma bebida na bota servida por Nattan no palco do Ribeirão Rodeo Music 2025 em Ribeirão Preto, SP
Érico Andrade/g1
Além dos problemas vocais, vale sempre lembrar que o hábito pode se tornar dependência.
“Se ele precisa do álcool para cantar, para exercer aquela profissão, ele tem algum problema que precisa de ajuda médica. Porque ele precisar do álcool para exercer aquela profissão já configura alcoolismo”, alerta a fonoaudióloga Thays Vaiano.
“Você só sobe no palco se tiver bebido? ‘Ah, não, mas eu só bebo uma latinha.’ Tá, mas senão você não consegue fazer o show? Você acha que o show é ruim? Isso já é uma dependência. Não necessariamente a pessoa tem que beber duas garrafas de vinho para parecer que que ela tá viciada. É o quanto álcool vai ocupando espaço na vida desse artista”, explica a psicóloga Juliana Chiavassa.
A psicóloga alerta ainda para o fato de alguns artistas sentirem a necessidade de consumir álcool para exercer atividades profissionais além do show, como participar de uma sessão de fotos, gravar ou compor. “Artisticamente, o que é que você faz da sua carreira sem a bebida? Esse é o ponto principal.”
A nova geração está mudando?
João Gomes no Derradeiro de Maio
Joana Lima
Não é de hoje que artistas consomem álcool nos palcos e bastidores. Bruno, dupla de Marrone, Leonardo e Zeca Pagodinho são alguns exemplos emblemáticos.
Mas os depoimentos recentes destes artistas mais jovens citando o impacto no palco podem significar uma mudança de padrão. Ou apenas o reflexo da fase em que os famosos mostram um pouco mais de sua “vida real”. Eles contam suas dores, fraquezas e batalhas sobre saúde mental.
“As pessoas hoje são mais esclarecidas, e grande parte já entende a necessidade de se cuidar. A voz é multifatorial, sofre o impacto de tudo o que afeta o nosso corpo, para o bem e para o mal”, afirma a fonoaudióloga Leny Kyrillos.
“Hoje há uma consciência maior, principalmente junto aos jovens, que em geral estão bebendo menos. Há uma maior procura e uma atenção maior na busca pela saúde e longevidade da voz.”

Fonte: G1 Entretenimento

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